Redes Sociais influenciam nas decisões de saúde

Redes Sociais influenciam nas decisões de saúde

Se as redes sociais influenciam decisões de saúde, os médicos podem continuar ignorando esse espaço?

A educação sanitária é um dos pilares da Atenção Primária à Saúde. Mas enquanto a população forma suas opiniões sobre saúde no ambiente digital, muitos profissionais permanecem ausentes das conversas que influenciam comportamentos, escolhas e decisões relacionadas à própria saúde.

É quase um clichê dizer que vivemos na era da desinformação. Afinal, basta abrir qualquer rede social para encontrar opiniões, conselhos e recomendações sobre praticamente qualquer assunto. O problema é que, quando falamos de saúde, as consequências deixam de ser apenas informativas e passam a impactar diretamente a vida das pessoas.

Uma pesquisa realizada pela Unicamp e publicada em 2026 trouxe um dado preocupante. Segundo o estudo, a cobertura vacinal infantil no Brasil caiu de 97% para 75%. Mais alarmante ainda: pelo menos 1 em cada 5 brasileiros afirmou ter sentido medo ou alterado sua decisão de vacinação após entrar em contato com conteúdos negativos ou desinformação em plataformas digitais.

Esse dado nos obriga a refletir sobre algo que vai muito além das vacinas.

Se conteúdos publicados na internet são capazes de modificar decisões relacionadas à saúde, então as redes sociais deixaram de ser apenas ambientes de entretenimento. Elas se tornaram espaços onde percepções são construídas, comportamentos são moldados e escolhas relacionadas à saúde são tomadas todos os dias.

E é justamente aqui que a discussão passa a envolver os médicos.

Ao se formar, todo médico assume o compromisso de colocar seu conhecimento a serviço da população. Dentro da Atenção Primária à Saúde, uma das principais ferramentas para cumprir essa missão é a educação sanitária: levar informações confiáveis, acessíveis e cientificamente embasadas para que as pessoas possam tomar melhores decisões sobre sua própria saúde.

Durante décadas, essa educação aconteceu principalmente dentro dos consultórios, das escolas, das campanhas públicas e das unidades de saúde.

Mas o cenário mudou.

Hoje, milhões de pessoas aprendem sobre saúde no Instagram, no Google, no TikTok, no YouTube e no WhatsApp. Gostemos ou não, uma parte significativa da educação sanitária passou a acontecer nesses ambientes.

Diante disso, surge uma pergunta inevitável:

Se as redes sociais se tornaram um dos principais meios de influência sobre decisões de saúde, os médicos podem continuar ignorando esse espaço?

Existe a percepção de que a presença médica nas redes sociais está necessariamente ligada à autopromoção, à busca por pacientes ou à mercantilização da profissão. Em alguns casos isso realmente acontece. Mas reduzir toda presença digital médica a essa visão talvez seja ignorar um problema muito maior.

Quando profissionais comprometidos com a ciência e com a saúde pública permanecem ausentes, o espaço não fica vazio. Ele é ocupado por outras vozes.

Algumas são responsáveis.

Outras não.

E os números mostram que isso tem consequências.

Talvez a discussão não seja sobre marketing.

Talvez a discussão seja sobre responsabilidade.

Se sabemos que informações digitais influenciam decisões de saúde, então participar desse ambiente também passa a ser uma forma de promover saúde.

Muitos argumentam que já existem outros profissionais, instituições e criadores de conteúdo realizando esse trabalho.

Mas existem dois problemas nessa lógica.

O primeiro é que os dados mostram que ainda não é suficiente. Se fosse, provavelmente não estaríamos observando indicadores tão preocupantes relacionados à desinformação em saúde.

O segundo é que cada médico possui algo que nenhuma campanha pública consegue reproduzir: a confiança construída com seus próprios pacientes.

As pessoas tendem a ouvir aqueles em quem confiam.

E se o médico não estiver presente nos espaços onde seus pacientes buscam informações diariamente, dificilmente poderá esperar que suas orientações tenham a mesma força que as mensagens que eles consomem todos os dias.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja se vale a pena estar nas redes sociais.

Talvez a pergunta seja outra:

Se a educação sanitária continua sendo uma responsabilidade médica, é possível cumprir plenamente essa missão permanecendo ausente do principal ambiente onde as pessoas aprendem sobre saúde hoje?

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